As últimas 24 horas de Elvis Presley

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Como tinha sérias dificuldades para dormir, Elvis acabava trocando o dia pela noite. Pobre de quem tinha que servi-lo (coitado do dentista) ou, até mesmo, o bajular. Durante os anos 70, o Rei fechava a sala de projeções do Memphian Theater para comandar suas sessões cinematográficas, quando, na maioria das vezes, assistia a filmes de caratê. Vale lembrar que o cantor praticou a arte marcial por 20 anos, chegando a se graduar no oitavo Dan de faixa preta. Mas na noite do 15, Elvis resolveu ficar em casa. Naquele mesmo dia, segundo seu assistente de palco, Charlie Hodge – conhecido por entregar os lenços no palco –, o ídolo estava entusiasmado com seu projeto de abrir uma produtora de filmes, quando se dedicaria a atuar, apenas em papéis dramáticos, e dirigir. O Rei chegou a iniciar seu primeiro documentário, que abordaria o caratê. Equipes de filmagem foram mandadas à Europa para registrar campeonatos mundiais. Alguns takes podem ser conferidos no filme póstumo “Elvis, ídolo imort...

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Os Filmes da segunda metade dos anos 60: Parte II

A 3 de Outubro de 1966, Elvis Presley iniciou a rodagem de Easy Come, Easy Go, último filme do contrato com o lendário produtor Hal Wallis, responsável pela maioria dos grande êxitos da carreira do cantor.




Aparentemente Easy Come, Easy Go, estreado no verão de 1967, é mais uma das muitas comédias românticas protagonizadas por Elvis ao longo dos anos 60, no entanto esta película distingue-se na filmografia do cantor por ser a primeira a reconhecer a existência de uma nova cultura jovem, diferente daquela de que Elvis fora o principal precursor. De facto, neste filme, Presley representa um oficial da marinha americana que se apaixona por uma dançarina de Go Go, acabando por se envolver com os seus amigos Hippies e Beatniks.
Easy Come, Easy Go, estabeleceu o modelo da maioria dos filmes protagonizados por Presley entre 1968 e 1970, optando pela diminuição do número de canções, o que constituiu uma reaproximação ao modelo da comédia musical.



Ao contrário do medíocre Speedway (68), que seguia a formula do “musical de corridas”, imposto a Elvis pela MGM após o êxito estrondoso de Viva Las Vegas (64), Live a Little, Love a Little (68), o ultimo dos nove filmes realizados pelo veterano Norman Taurog, é uma tentativa bem sucedida de devolver Presley ao cinema de temática contemporânea, abordando de forma divertida temas adultos que reflectiam os comportamentos da sociedade americana da época, nomeadamente a revolução sexual e a emancipação feminina.
  Tal como em Easy Come, Easy Go, os números musicais de Live a Little, Love a Little, são reduzidos ao mínimo, integrando-se na história com maior naturalidade, sendo de destacar o sonho psicadélico em que Elvis canta “Edge of Reallity”, e o clássico moderno “A Little Less Conversation”.
Apesar do filme primeiro filme protagonizado por Elvis em 1968, Stay Away, Joe, não ter resultado como seria desejável, esta curiosa mistura de western contemporâneo com comédia politicamente incorrecta, revela um esforço consciente para mudar a imagem cinematográfica de Presley no final dos anos 60. Na verdade, em Stay Away, Joe, Elvis interpreta uma espécie de anti-herói cómico, uma variação da personagem que Paul Newman interpretou em Hud (62), o tipo de filme que, não fosse o Coronel Parker tão ganancioso, poderia ter sido protagonizado por Elvis, abrindo-lhe as portas do cinema dramático.



Em 1969, Elvis participou em Charro, um western de série B, claramente inspirado nos westerns europeus de Sérgio Leone e Sérgio Corbuci. Realizado pelo veterano Charles Marquis Warren, que trabalhara com Clint Eastwood na série televisiva Rawhide, Charro é um filme bem mais relevante do que os musicais Clambake e Speedway, oferecendo a Presley oportunidade para mostrar o seu potencial não só para o western mas também o cinema de acção.
  Os dois últimos filmes narrativos da carreira de Presley apresentam igualmente motivos de interesse. The Trouble with Girls (69), é um curioso filme de época realizado por Peter Tewksbury, que resulta num exercício nostálgico de “americana” onde se recorda o famoso Chautauqua, um show itinerante que fez as delícias dos americanos no início do século XX.
Elvis Presley interpreta Walter Hale, o manager da companhia, que se revela um patriarca esclarecido, capaz de resolver com grande humanismo todo o tipo de problemas, e interpreta o excelente “Clean up your backyard”, numa das melhores cenas musicais do final dos anos 60.
Walter Hale é uma personagem com bastantes semelhanças ao Dr. John Carpenter, a personagem que Elvis interpreta em Change of Habit (70), o último filme da carreira do cantor norte americano, (exceptuando os documentários).



Mais uma vez podemos observar a capacidade de Elvis para interpretar personagens humanistas, que se identificam com os problemas alheios e combatem as injustiças sociais. John Carpenter é médico num bairro pobre de uma grande cidade americana, onde com a ajuda de três jovens freiras voluntárias ajuda a população local numa clínica gratuita por onde passam entre outros, uma criança autista e um adolescente perturbado.
Change of Habit é um folk musical, realizado com indiscutível competência por William A. Graham, que devolveu Elvis ao cinema contemporâneo de temática adulta. Um exemplo perfeito do que poderia ter sido a carreira de Elvis Presley.
Jorge Carrega
Autor do livro: Elvis Presley e o Cinema Musical de Hollywood

Comentários

  1. Excelente artigo de Jorge Carrega. Um olhar sério sobre a carreira de Elvis no cinema!

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