Talvez nenhum título melhor que esta bela canção - gravada em dueto com Ann Margret - para representar o legado e a memória daquele menino pobre do Mississipi que viria a transformar o mundo. O simples caminhoneiro de costeletas que realizaria prodigiosa obra e deixaria um legado que perduraria por tão indefinido tempo...

Nascido em uma pequena cidade no sul dos EUA, Elvis Aaron Presley ficaria conhecido como Elvis Presley, Elvis, ou simplesmente...nada: sua fama atingiria tal patamar a ponto de se lançarem discos estampando apenas a sua imagem e o título do álbum. O nome Elvis ao lado se tornaria redundante demais.

Desde sua primeira gravação, uma canção para sua mãe, rios de tinta correriam e florestas inteiras de papel seriam derrubadas para catalogar todos seus recordes e feitos - coisa que ninguém imaginaria em 1945, quando aos 10 anos de idade, em sua primeira apresentação, tirou o segundo lugar em um concurso de canto no Mississipi. Seria interessante saber por onde anda o primeiro lugar, pois é provável que ainda esteja perplexo com o fato de que seu oponente viria a gravar mais de 150 álbuns e compactos de Ouro, Platina e Multi-Platina (e cerca de outras 220 certificações estão a caminho – o que perfaria um total de mais de dois bilhões de discos, vendidos ao redor de todo o planeta azul). Aliás, oportuno lembrar ao leitor, que chega este mês às lojas, inclusive no Brasil, o novo, fabuloso e aguardado DVD Elvis On Tour, cobrindo fantásticas tournês do ano de 1972.

Ainda no fim da adolescência, viria a se tornar o catalisador das forças daquela que é chamada de a última grande revolução cultural do Século XX: o rock´n´roll. Não o inventou, mas dar-lhe-ia as diretrizes e formatos que hoje conhecemos. O rock de Bill Halley era muito branco, mais country. O rock de Little Richard, muito negro, mais rhythm´n´blues. O rock de Pat Boone, muito comportado, mais gospel. E Elvis se tornaria a antena que captou a sensualidade selvagem do rhythm´n´blues negro, o pungente berreiro country dos brancos e a harmonia saltitante do gospel; colocaria tudo no liquidificador e o jogaria na cara da conservadora sociedade americana dos anos 50 - branca, anglo-saxã e protestante.

Com Elvis, a música viria a unir pessoas. Reuniria indivíduos ao redor de todo o mundo, independente de credo ou raça; o rock simbolizaria atitude de rebeldia e serviria como referência para a juventude de classe média pós-guerra. Elvis fecharia as cortinas do macarthismo e do conservadorismo dos anos 50; daria início ao espírito que simbolizaria as décadas seguintes. John Lennon, e outros grandes da música até avaliariam: “antes de Elvis não havia nada”. Antes que alguém fizesse alguma coisa, Elvis fez tudo!

Mas Elvis fez ainda mais que sacudir ao som de rock and roll. Após chocar a terra de Tio Sam, colocar abaixo os compartimentos que dividiam toda uma sociedade racista e ser censurado em plena “Terra da Liberdade” por sua dança sensual, o ex caminhoneiro Presley viria a deslumbrar o mundo com um veneno: o veneno de sua voz.

Dono de um perfil de efígie de moeda, de fazer inveja a qualquer Marlon Brando, Tony Curtis, Johnny Deep e James Dean, o garoto de costeletas evidenciaria que não era o que hoje se chama de  “apenas um rostinho bonito”. O Ex-lanterninha e caminhoneiro revelaria que além de perfomances ritmadas, sex appeal e rock & roll, detinha um poder vocal excepcional, verdadeiramente incomum. Mesmo sem passar por estudos teóricos, desenvolvera a capacidade de percorrer praticamente toda a escala musical - e com que facilidade! Aquele garoto atingia à elevadíssimas notas, sem falsete, à plena voz - o chamado ‘dó de peito’, mister de todo cantor de ópera! O garoto sabia que para atingir a Eternidade seria preciso muito mais que simples passos e sacolejos.

A música não seria a mesma depois de Elvis, nem após seu surgimento, nem após deixar este mundo. Assim como na carta testamento de Vargas, o Rei deixaria a vida para entrar na história. O mundo já passara e enfrentaria outras grandes perdas: Edith Piaf, Roy Orbison, Frank Sinatra... Nenhuma causaria tanta comoção quanto a ocorrida aos 16/08/77. Causa mortis oficial: arritmia cardíaca, um problema hereditário, agravado pela dependência de medicação prescrita; porém alguns afirmariam ter se tratado de um assassinato. Assassinato!? Sim!
Elvis teria sido asfixiado pelo próprio veneno de sua beleza, voz e maestria. Sugado pela exposição exagerada de sua imagem em 33 filmes, pelas quase 1.200 apresentações a que fora requisitado a expor sua voz nos últimos anos... Elvis fora engolido pelo próprio monstro que criara, assassinado pelo veneno que brotou de sua própria alquimia.

Como um norte geográfico, se tornaria ‘a’ referência: seus recordes de primeiros lugares nas paradas seriam os difíceis alvos a serem batidos, seu recorde de público em transmissão de show via satélite (Havaí, 1973 – cerca de 2 bihões de pessoas), as roupas que utilizava nos palcos, seu número de vendas em todos os formatos (LP, CD, DVD)... Até mesmo seu funeral e local final de sepultamento passariam a ser inspiração e objeto de cobiça para aqueles que desejam um pedaçinho que seja de sua Eternidade. Se transformaria um verdadeiro e eterno alvo.
Não apenas dividiria em duas a história cultural do século XX, mas construiria um legado moral raríssimo a um artista – além do mais se tratando de um roqueiro! Seria conhecido como aquele que se desfazia de quase toda sua fortuna auxiliando instituições de caridade, amparando artistas esquecidos, inválidos por doenças ou pela guerra - amigos e desconhecidos.

Relatos sobre sua sensibilidade abundam e comovem, como os de sua perturbação quando de alguém cobiçando seus automóveis e da imediata e espontânea entrega  do alvo de desejo; ou, quando perguntando ao um taxista se o automóvel com quem trabalhava era próprio e a resposta negativa, o sensível cantor seguiria para realizar sua apresentação naquela cidade, mas não a deixaria sem antes presentear seu condutor com um belo exemplar de quatro rodas. Elvis realizava esses e outros milhares de atos de generosidade aos quais sua modéstia não lhe impulsionava jamais a torná-los públicos. Admiráveis atitudes de genuína sinceridade que deveriam ser seguidas pelos artistas de nossos dias.
Mesmo com todo estes crescentes engrandecimentos e apesar dos incontestáveis atributos e contribuições como artista, Elvis jamais admitiria ser chamado de Rei (bem diferente dos auto-intitulados ‘reis’ que se seguiriam). Se durante os concertos as mudanças de iluminação lhe permitissem avistar alguma faixa com dizeres como “Elvis é o rei!”, imediatamente determinava sua retirava e taxativamente declarava: “não reconheço nenhum Rei, além de Jesus Cristo!”.

Não sem motivo, ainda tanto tempo depois sua memória evoca tanta admiração, mesmo entre aqueles que, como este jovem autor, sequer cogitavam vir ao mundo naquele 16/08.  Não são poucos os fatores que explicam porque por mais exposição a que se tente submeter um astro (vivo ou morto), ninguém será tão Eterno quanto Elvis Presley .
Penso que nada sintetizaria mais sua obra artística e exemplo humanitário que a inscrição contida em sua lápide: Ele era um presente precioso de Deus, que todos estimávamos e sempre amamos. Ele tinha um talento dado por Deus e o repartiu conosco, com o mundo, com todos, sem dúvida. Tornou-se exaustivamente aclamado, capturando os corações de tantos jovens e também mais velhos. Ele era admirado não somente por ser “entretainer”, mas pela sua grandiosidade humanitária: por sua generosidade, seu tipo de sentimento. Ele revolucionou o universo da música. Recebeu grandes prêmios. Foi uma lenda vida em seu próprio tempo, ganhou o respeito e o amor de milhões. Deus viu que ele precisava de algum descanso e o chamou à Sua casa com Ele. Sentimos sua falta...

Oscar Luciano Gomes Neto (Bauru, São Paulo)
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